Série: A Verdade sobre a Cruz | #01

A cruz está no centro do cristianismo — mas compreendemos sua mensagem?
Lembro-me que em 2012, fui encorajado a ministrar uma série sobre “A Cruz”. Naquela ocasião, fui grandemente impactado por um pequeno livro de R.C. Sproul, intitulado “A Verdade da Cruz”.
Confesso que os aprendizados desta pequena, porém, profunda obra de Sproul muito me impactaram na época, que viraram 7 ministrações que deram nome a uma série “A Verdade sobre a Cruz”. Por esses dias, revisando os esboços deste material, resolvi reescreve-los, agora, em forma de artigos aqui para o nosso Blog, então aqui vamos nós: sejam bem-vindos a série “A Verdade sobre a Cruz”, você está pronto?!
Redescobrir a cruz é voltar ao coração do evangelho e compreender mais profundamente quem Deus é, quem nós somos e o que Cristo realizou por nós.
Existe um símbolo que, mesmo depois de dois mil anos, continua sendo imediatamente associado ao cristianismo: a Cruz.
Ela está nas fachadas de igrejas, nos púlpitos, nas capas de Bíblias, em pinturas, joias e tantos outros objetos. É possível encontrá-la em lugares muito diferentes, representando a fé cristã das mais variadas maneiras. Mas existe uma pergunta que precisamos fazer: será que estamos tão familiarizados com o símbolo da cruz que já não paramos para compreender plenamente a mensagem que ela anuncia? O que a cruz de Cristo realmente representa? O que ela aponta?
Reconhecer a cruz é uma coisa. Compreender o que aconteceu nela é outra.
A cruz é tão central para a fé cristã que corremos o risco de tratá-la como um elemento familiar, quase automático. Cantamos sobre ela, ouvimos mensagens a seu respeito e afirmamos que Jesus morreu por nossos pecados, por meio da Cruz. Tudo isso é verdadeiro e precioso. Entretanto, será que compreendemos por que a morte de Cristo foi necessária? O que o pecado tem a ver com a cruz? Por que a santidade e a justiça de Deus são fundamentais para entendermos o Calvário? E o que, afinal, Cristo conquistou para aqueles que nele creem?
Essas não são perguntas secundárias. Elas nos conduzem ao próprio coração do evangelho. Ao âmago da nossa fé. E o que entendemos e cremos a respeito da cruz, pode sim determinar nossas ações e respostas mediante a exposição do Evangelho, ou por outra perspectiva, o que não compreendemos sobre a cruz pode de algum modo limitar nossas respostas práticas à profundidade do Evangelho!
Por isto, neste 10 artigo da nossa série “A Verdade sobre a Cruz”, quero refletir com você, pelo menos 5 aspectos sobre a Cruz de Cristo e nossa vida prática como cristãos, vamos lá?
1. A Cruz é mais do que um símbolo religioso
Vivemos em uma sociedade na qual símbolos e marcas comunicam mensagens sem que precisemos de muitas palavras. Uma imagem pode nos fazer lembrar imediatamente de uma empresa, um produto, uma experiência ou um conjunto de valores.
Com o cristianismo, a cruz ocupa um lugar semelhante em termos de reconhecimento. Mas há uma diferença fundamental: ela não é apenas uma representação visual de uma religião. Ela nos remete ao acontecimento decisivo da história da redenção: a morte de Jesus Cristo em favor de pecadores.
A cruz não aponta simplesmente para o sofrimento de um homem inocente, nem é apenas uma lembrança de amor, coragem ou sacrifício. Ela anuncia que o Filho de Deus veio ao mundo para realizar aquilo que nós jamais poderíamos realizar por conta própria.
O apóstolo Paulo expressou essa centralidade ao escrever à igreja de Corinto:
“Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado.”
1 Coríntios 2:2
Paulo não estava afirmando que todas as outras doutrinas eram desnecessárias. Suas próprias cartas demonstram a amplitude de seu ensino. Ele falava sobre a igreja, a santidade, a ressurreição, os dons espirituais, a esperança futura e muitos outros assuntos.
O ponto era outro: em sua pregação, a pessoa e a obra de Jesus crucificado ocupavam o lugar central. Tudo precisava ser compreendido à luz daquele que morreu e ressuscitou para salvar o seu povo.
A cruz, portanto, não é um assunto entre muitos outros dentro da fé cristã. Ela é indispensável para compreendermos a missão de Jesus e a maneira como Deus escolheu realizar a salvação.
Não podemos compreender adequadamente o cristianismo ignorando a cruz, porque não podemos compreender adequadamente o evangelho sem compreender o que Cristo realizou nela.
Por isto, a Cruz de Cristo é mais que um símbolo, é mais que um memorial, mas foi o instrumento pelo qual o sacrifico do Filho de Deus se deu. Ao olharmos para Cruz, lembramos do Seu sofrimento, do sangue derramado, do brado “Está Consumado”, que ecoou dentro do “Santo dos Santos” no templo sagrado, e rasgou o véu de alto a baixo, nos proporcionando livre acesso. Antes da ressurreição de nosso Senhor, Ele teve que carregar a cruz e passar por ela. Em outras ocasiões afirmou que para o segui-Lo precisamos também tomar a nossa cruz.
Logo, entendemos que a cruz não é um simples elemento, muito menos limita-se apenas à um símbolo. A cruz é a resposta, a cruz é o meio, a cruz de Cristo é a marca que nos identifica como um povo, que foi redimido pelo sangue derramado no calvário!
2. Por que precisamos compreender a cruz?
Talvez alguém pergunte: se já sabemos que Jesus morreu por nossos pecados, por que precisamos estudar ou meditar tanto neste assunto?
Porque uma compreensão superficial da cruz produz uma compreensão superficial do evangelho.
Se enxergamos apenas o sofrimento físico de Jesus, perdemos de vista o significado espiritual e redentor de sua morte. Se falamos somente sobre o amor de Deus, sem considerar sua santidade e justiça, podemos reduzir a cruz a uma demonstração de afeto, como se ela fosse apenas uma maneira de Deus nos mostrar que se importa conosco.
A cruz certamente revela o amor de Deus. O próprio apóstolo João declara:
“Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados.”
1 João 4:10
Observe como esse texto une duas verdades: o amor de Deus e a obra que Cristo realizou para lidar com nossos pecados. O amor divino não é apresentado como uma indiferença diante do mal, mas como o amor que toma a iniciativa de prover a salvação.
É aqui que precisamos ampliar nosso entendimento. A cruz nos ensina não apenas que Deus nos ama, mas também que o pecado é grave, que a justiça de Deus é perfeita e que a reconciliação com Ele não poderia ser tratada como algo banal.
O evangelho não começa dizendo que somos pessoas suficientemente boas que precisam apenas de encorajamento. Ele anuncia que somos pecadores que precisam ser reconciliados com Deus — e que o próprio Deus providenciou, em Cristo, o caminho da reconciliação, e esta reconciliação de deu na cruz!
Quanto mais compreendemos a gravidade do nosso pecado, mais percebemos a grandeza da graça. Quanto mais contemplamos a santidade de Deus, mais admiramos a obra de Cristo. E quanto mais entendemos o que foi realizado na cruz, menos tratamos a salvação como algo que poderíamos conquistar por nossos próprios méritos.
3. A cruz revela quem Deus é
Muitas vezes, quando perguntamos por que Jesus precisou morrer, a resposta vem rapidamente: “Porque Deus nos ama”.
Essa resposta é verdadeira, mas não completa.
A Bíblia revela que Deus é amoroso, misericordioso, santo e justo. Essas características não competem entre si, como se Deus precisasse escolher entre amar e fazer justiça. Elas pertencem ao seu caráter perfeito, ou seja, o amor de Deus, é santo; a justiça de Deus, é santa; a misericórdia de Deus é santa. Logo, todos os atributos de Deus partem de seu caráter, que é Santo!
Deus não é amoroso apesar de ser justo, nem justo apesar de ser amoroso. Ele é perfeitamente justo e perfeitamente amoroso.
Por isso, a cruz não deve ser entendida como uma tentativa de convencer um Deus relutante a nos amar. Foi o próprio Deus quem tomou a iniciativa de salvar. O Pai enviou o Filho, e o Filho se entregou voluntariamente, em obediência, para realizar a redenção.
Paulo explica essa relação entre justiça e salvação em Romanos:
“Para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus.”
Romanos 3:26
Essa declaração nos conduz a uma questão essencial: como Deus pode justificar pecadores sem negar a santidade de Seu Caráter e sua própria justiça, que é santa?
A resposta de Paulo está relacionada à obra redentora de Cristo. Deus não trata o pecado como se ele não tivesse importância. Na cruz, vemos a seriedade com que Deus lida com o pecado e, ao mesmo tempo, a profundidade de sua graça em favor de pecadores.
Isso não significa que possamos explicar todos os detalhes da expiação em um único versículo ou esgotar, em um artigo, a riqueza desse acontecimento. Significa que precisamos rejeitar qualquer compreensão da cruz que separe o amor de Deus de sua santidade e justiça.
A cruz nos impede de banalizar o pecado e, simultaneamente, de desesperar-se diante dele. O pecado é tão sério que não poderia ser simplesmente ignorado; a graça é tão extraordinária que Deus providenciou em Cristo aquilo de que precisávamos para justificação dos nossos pecados.
4. A cruz também revela quem nós somos
É relativamente fácil reconhecer a cruz como símbolo do amor de Deus. Mais difícil é permitir que sua mensagem confronte a maneira como enxergamos a nós mesmos.
Quando olhamos para a cruz à luz das Escrituras, não vemos apenas o amor de Deus por nós. Também somos confrontados com a realidade do nosso pecado.
Paulo escreve:
“Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus.”
Romanos 3:23
O pecado não é apenas um conjunto de erros ocasionais, nem se limita às atitudes que causam prejuízo visível a outras pessoas. Em sua essência, o pecado é uma transgressão prioritariamente contra Deus, uma ruptura da obediência devida ao nosso Criador.
Isso não significa que todos os pecados tenham as mesmas consequências humanas ou a mesma gravidade em todos os sentidos. Significa que nenhum pecado pode ser compreendido corretamente sem considerar contra quem ele é cometido.
A cruz confronta nossa tendência de diminuir nossas culpas, justificar nossas escolhas e medir nossa justiça pela comparação com outras pessoas.
Podemos nos considerar bons porque não somos tão maus quanto alguém que conhecemos. Podemos nos sentir justos porque cumprimos determinadas obrigações religiosas. Podemos até construir uma imagem respeitável diante das pessoas. Mas a pergunta decisiva não é se parecemos melhores do que os outros. É como estamos diante de um Deus infinitamente Santo.
É nesse ponto que a mensagem da cruz nos humilha: não para nos destruir, mas para nos conduzir à verdade e à graça.
Não somos nossos próprios salvadores. Não conseguimos apagar nossas culpas por meio de boas obras, nem restaurar por esforço próprio nossa relação com Deus. Precisamos de uma redenção que venha de fora de nós, realizada por alguém capaz de fazer o que não podemos fazer.
E é exatamente para essa necessidade que o evangelho aponta: Jesus Cristo, aquele que tornou-se nosso Mediador, e esta mediação se deu por intermédio da Cruz!
5. Na cruz, encontramos a resposta de Deus
Se a cruz revela a gravidade do pecado e a santidade de Deus, ela também revela que Deus não nos deixou sem esperança.
O cristianismo não anuncia apenas um diagnóstico sobre a condição humana. Anuncia a ação de Deus na história para salvar pecadores.
Jesus Cristo não foi surpreendido pelos acontecimentos de sua morte, como se a cruz representasse o fracasso inesperado de sua missão. Ele veio para cumprir a vontade do Pai e entregar sua vida em favor de muitos.
O próprio Jesus declarou:
“Tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.”
Mateus 20:28
A cruz, portanto, não foi um acidente que Deus precisou transformar em algo útil. Ela pertence ao propósito redentor de Deus, revelado nas Escrituras e cumprido na pessoa e na obra de Cristo.
Nela, encontramos mais do que um exemplo a ser imitado. Encontramos o Salvador de que necessitamos.
Jesus não morreu simplesmente para nos inspirar a amar mais, sofrer com coragem ou praticar o bem. Ele morreu para realizar a redenção. Sua obra trata da culpa do pecado, da reconciliação com Deus e da libertação daqueles que estavam escravizados por sua condição pecaminosa.
Por isto, ao longo desta série, examinaremos diferentes aspectos dessa obra: por que a expiação era necessária, como as Escrituras descrevem o pecado, o que significa Cristo ter tomado nosso lugar, como a Bíblia anuncia a cruz e de que maneira a morte de Jesus está relacionada à maldição, à redenção e à certeza da salvação.
Não faremos isso para transformar a fé em um exercício meramente intelectual. Estudar a cruz deve conduzir à adoração, à gratidão, ao arrependimento e a uma vida moldada pelo evangelho.
A verdade bíblica não nos chama apenas a saber mais sobre Cristo, mas a reconhecer quem ele é e a viver à luz do que realizou por nós.
Por fim, não passe pela cruz sem contemplar Cristo
A cruz é tão familiar aos cristãos que podemos nos acostumar com sua imagem e deixar de considerar a profundidade de sua mensagem.
Por isso, precisamos voltar às Escrituras. Precisamos olhar novamente para o Calvário e perguntar não apenas o que aconteceu ali, mas o que Deus nos revelou por meio daquele acontecimento.
A cruz nos ensina que Deus é santo e justo. Revela que o pecado é mais grave do que possamos admitir. Desfaz nossa ilusão de autossuficiência e mostra nossa necessidade de salvação. Mas, acima de tudo, anuncia que Deus, em seu amor e em sua graça, providenciou em Jesus Cristo a redenção de que necessitamos.
Não há mérito humano capaz de substituir a obra de Cristo. Não há religiosidade que possa ocupar o lugar de sua entrega. Não há esperança cristã que permaneça intacta quando a cruz é esvaziada de seu significado.
Por isso, não basta carregar a cruz como símbolo, falar dela como tradição ou lembrá-la apenas em datas especiais. Precisamos compreender sua mensagem, recebê-la com fé e permitir que a verdade do evangelho transforme nossa maneira de pensar, amar, servir e viver.
O apóstolo Paulo escreveu:
“Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo.”
Gálatas 6:14
Que essa também seja a nossa confissão. Não nos gloriamos em nossa capacidade, nossa justiça ou nossos méritos, mas em Jesus Cristo, que se entregou por pecadores e cuja obra é o fundamento da nossa esperança.
A cruz não é apenas o símbolo do cristianismo. Ela nos conduz ao centro do evangelho: Jesus Cristo crucificado e ressuscitado, o Salvador em quem encontramos perdão, reconciliação e vida.
É para compreender melhor essa verdade que iniciamos esta jornada.
Que Deus nos conceda olhos para contemplar a glória de Cristo, corações humildes diante de sua graça e vidas que testemunhem, no cotidiano, a profundidade do evangelho e a verdadeira mensagem da Cruz de Cristo!
Em todos os seus dias,
Viva Coram Deo.
Fabio Bueno


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