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À beira da Eternidade

  • 5 de jan.
  • 7 min de leitura

Atualizado: 9 de jan.


Lembro-me de ler o livro “A Vida de David Brainerd” de Jonathan Edwards, em meados de 2013. Em um determinado trecho de seu diário, Brainerd menciona: “Adoro viver à Beira da Eternidade”. Esta simples frase, mexeu profundamente comigo. Se você já leu alguma coisa sobre David Brainerd, sabe que foi um jovem missionário, apaixonado pelo Evangelho, por uma vida de oração e pela pregação missionária aos índios norte-americanos. Ele tinha plena consciência de que sua vida era como descrita na carta de Tiago, “um simples vapor”, pois, Brainerd sofria de leucemia e sabia que não viveria muito, prova que faleceu aos 29 anos, mas fez em tão pouco tempo de vida, o que muitos grandes homens de Deus jamais fizeram. E no final de sua vida, escreveu:


“Digo, agora que estou morrendo, que por nada que há no mundo eu viveria minha vida de outra maneira.” David Brainerd (1718–1747), em carta a seu irmão Israel Brainerd

Quando terminei o livro, senti-me profundamente impactado e ao mesmo tempo, constrangido por não buscar à Deus como realmente poderia e deveria. Foi então que anotei exatamente este tema, lá em 2013: “Vivemos à beira da eternidade”. Meses depois, esta frase virou um sermão que tive a oportunidade de pregar na igreja que congregava na época.

Este artigo por tanto, é um resumo do que vivi, orei, preguei e senti naqueles dias de 2013, e quero começar logo de cara, te fazendo uma pergunta: o que você faria se descobrisse exatamente agora que te restam apenas poucas horas de vida?


Talvez sua resposta imediata fosse: “eu gastaria este pouco tempo orando, buscando a Deus com lágrimas, arrependendo-me dos meus pecados ocultos, e de alguma maneira, buscaria paz — paz com Deus e com os homens — enquanto aguardaria a hora final. A verdade é que, mesmo sendo um exemplo hipotético,  pensamos nisso com certa tranquilidade, porque tratamos essa hipótese apenas como um exercício de imaginação. Algo distante, improvável, quase irreal. Mas a Palavra de Deus não traria essa realidade com leviandade, veja:


“Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece. Em lugar do que devíeis dizer: Se o Senhor quiser, e se vivermos, faremos isto ou aquilo. Mas agora vos gloriais em vossas presunções; toda a glória tal como esta é maligna. Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado.”

(Tiago 4:14–17)


Buscando responder à pergunta inicial: se soubéssemos que restam apenas alguns minutos — ou um único dia — desejaríamos tempo, silêncio e comunhão com Deus. No mínimo, desejaríamos estar preparados.


Entretanto, se formos realmente honestos diante das Escrituras, talvez a reação mais sincera fosse o lamento. Lamento por não termos feito o bem que sabíamos que deveria ser feito. Lamento por termos vivido de forma dispersa, rasa, dividida, e desperdiçado uma das maiores oportunidades que nos é dada todos os dias…


Que oportunidade é esta?


A oportunidade de queimar a vida diante de Deus. Gastar nossos dias, pensamentos, forças e afetos por Ele, para Ele e para a Sua glória.


O problema é que esse cenário não é apenas uma hipótese. É uma verdade: as Escrituras afirmam que nossa vida é como vapor, como a neblina da manhã que surge por um instante e logo se dissipa. A versão Palavra Viva expressa isso com clareza perturbadora:

 “Vocês nem sabem como será a sua vida amanhã. Pois a sua vida é como a neblina da manhã, que aparece por um pouco de tempo e rapidamente se vai.”


Estamos, portanto, à beira da eternidade, porém, vivendo como se a eternidade não existisse!

Existe um ditado popular que afirma: “Para morrer, basta estar vivo”. Pessoas morrem a cada minuto, a cada segundo. Enquanto você lê este texto, centenas, milhares de pessoas estão entrando na eternidade — muitas sem aviso, sem preparo, sem tempo para ajustar seus caminhos. E nós?

Nós que afirmamos conhecer a verdade, nós que confessamos crer na eternidade, nós que sabemos que a alma é imortal, simplesmente, ignoramos muitas vezes esta realidade, por termos uma vida religiosa morna demais.


Por favor, de coração, não me interprete mal. Não quero parecer pessimista, ou ser o cara do balde de água fria, mas o evangelicalismo atual me parece muitas vezes pintar um conto de fadas gospel que não é real: cada vezes mais nossas igrejas estão cheias de eventos, agendas, cheias de jovens e casais, mas tão vazia da palavra prática nas vidas daqueles que às frequentam. Digo isso por mim mesmo, e com vergonha… por anos permiti me esfriar, levar minha fé a uma agenda semanal e rotineira, e isso mostra o quanto eu, de forma enganosa, acreditava que a eternidade está distante, quando na verdade, está mais próxima do que nunca, e que nós fomos criados para viver esta eternidade tanto quanto vivemos nossa vida cotidiana aqui!


Independentemente de onde a eternidade será vivida — céu ou inferno — todos somos eternos, no sentido de que nossa existência não termina com a morte. Desde o momento em que fomos concebidos, a contagem regressiva começou. E se sabemos disso, por que vivemos como se a eternidade fosse algo distante?


Por que a igreja, tantas vezes, age como se o encontro final com Deus estivesse sempre longe demais para nos preocupar hoje?


Charles Spurgeon advertiu com precisão:

“É tolice nos divertirmos enquanto nosso destino eterno está por um fio.”

Ainda assim, muitos de nós permanecemos confortáveis. Aquecidos pela lareira da zona de conforto espiritual. Satisfeitos em assistir, ouvir e acumular conhecimento, enquanto o mundo permanece frio, caído e morto em pecados.


Engordamos espiritualmente, mas não nos movemos para glória de Deus!

O quanto pensamos na eternidade, o quanto buscamos as coisas do alto como diz Colossenses 3, revela o quanto de fato cremos na eternidade. Não, eu não errei ao usar a palavra “crer”. Porque “crer” não é simplesmente acreditar, mas confiar de todo coração em uma verdade, em uma realidade, em alguém. E como nos comportamos, revela o quanto de fato confiamos. Apenas responda à você mesmo estas simples questões:


- Quando foi a última vez que você esteve a sós com Deus?

- Quando foi a última vez que abriu a sua Bíblia sem pressa, sem roteiro, apenas para ouvi-Lo?

- Quais livros — sérios, profundos, bíblicos — moldaram sua visão sobre santidade, caráter de Deus e vida cristã nos últimos anos?


Essas perguntas não são meras colocações. Elas revelam como encaramos a eternidade. Mostram se ela ocupa o centro ou apenas a periferia do nosso coração. Passamos muito mais tempo com redes sociais e com séries do Netflix, do que buscando intimidade com o Senhor e sua Palavra!


Tiago chama de arrogância viver baseando a vida em nossos próprios planos, sem submeter sonhos e projetos à vontade soberana de Deus. A Escritura é clara: viver assim é maligno, veja:


Em lugar do que devíeis dizer: Se o Senhor quiser, e se vivermos, faremos isto ou aquilo. Mas agora vos gloriais em vossas presunções; toda a glória tal como esta é maligna. Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado.”

(Tiago 4:15-17)


Uma coisa é fato: a eternidade não gira em torno de nós. Ela é sobre Ele, por Ele e para Ele (Romanos 11:36).


Viver para glória de Deus, e pensar nas coisas do alto, na eternidade, não se trata de não planejar ou sonhar para esta vida, mas de submeter todos os nossos planos também à eternidade. É fato que, quando fazemos isso, percebemos algo desconfortável: a maioria dos nossos projetos está voltado apenas para esta vida. Para o agora. Para o passageiro. Para o momentâneo. Para o vapor, que logo que surge, se vai!


Cresci ouvindo meu pai cantar uma música que dizia: "Tudo passa, tudo passará…”, e hoje, ao meditar neste texto de Tiago, pude ouvir nitidamente a voz de meu saudoso pai a cantarolar esta frase. Nossa vida está passando, à um ritmo frenético…e , muitas vezes, só percebemos isso tarde demais.

Desperdiçamos a vida com sonhos pequenos, projetos frágeis e ambições que não atravessarão a eternidade. Vivemos ocupados, mas não necessariamente fiéis. Ativos, mas não frutíferos.


Precisamos ter a mesma consciência que David Brainerd teve ao experimentar a intimidade com o Senhor, a consciência de que a eternidade já começou, que ela é real diariamente e que estamos à beira de nos lançarmos nela. Em breve, estaremos diante de Deus para prestar contas — não apenas do que fizemos, mas do que sabíamos que deveríamos ter feito e não fizemos.


“Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado.”

(Tiago 4:17)


Fazer o bem não é apenas realizar boas ações externas, mas viver de modo coerente com a verdade revelada. Viver à luz da eternidade. Viver Coram Deo, ou seja, para Glória de Deus em tudo!


Para fechar, pensemos por alguns instantes nos Morávios: dois jovens morávianos, com cerca de 20 anos, ouviram falar de uma ilha no leste da Índia onde milhares de escravos africanos viviam sem qualquer acesso ao evangelho. O dono da ilha, um homem ateu, afirmou que nenhum pregador pisaria naquele solo. Então eles fizeram uma proposta extrema: iriam como escravos — para sempre.


Venderam-se a si mesmos para custear a viagem. Nunca mais veriam suas famílias. No porto, entre lágrimas e despedidas, alguém perguntou por que estavam fazendo aquilo. Enquanto o navio se afastava, eles ergueram as mãos e declararam: “Para que o Cordeiro que foi imolado receba a recompensa do seu sacrifício por meio das nossas vidas.”


Esse era o lema deles:


“Não devo orar por aquilo que não estou disposto a ser a resposta.”

Pare agora, reflita, repense tudo em sua vida, se possível ore ao Senhor e peça à Ele para lembra-lo todos os dias de que estamos à beira da eternidade. Isso não é retórica. É realidade!


“Que proveito tem o homem de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol?”

(Eclesiastes 1:3)


“Louco! Esta noite te pedirão a tua alma.”

(Lucas 12:20)


“Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade.”

(Eclesiastes 12:1)


A pergunta permanece, ecoando com urgência: o que estamos fazendo com a vida que Deus nos deu?


Que não precisemos chegar ao fim dos nossos dias para desejar ter vivido de outra maneira. Que possamos, hoje, viver com os olhos firmes na eternidade — Coram Deo, diante da face de Deus.


Em todos os seus dias,

VIVA CORAM DEO.

Fabio Bueno




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